
TEXTOS

A NORMALIDADE DOENTIA E A LOUCURA SADIA
Miguel Almir Lima de Araújo
Enquanto você se esforça pra ser, um sujeito normal, e fazer tudo igual
Eu do meu lado aprendendo a ser louco, um maluco total, numa loucura real...
Raul Seixas
Os modelos empadronados que perfazem a sociedade e que são constituídos pelas instituições sociais estabelecem leis e normas que lastreiam as ações e comportamentos dos indivíduos. Esses padrões culturais são instituídos e sedimentados de forma bastante difusa, e quase invisivelmente, de modo que passam até a serem concebidos como se fossem naturais, independentes dos contextos sócio-culturais.
O poder exercido pelas instituições sociais (Igreja, Família, Escola...) que forjam estes padrões se processa e se projeta de forma tácita e, muitas vezes, dissimulada mediante as diversas vias educacionais através de mecanismos eficazes de instalação e de sedimentação destes. De modo geral, as pessoas não têm consciência destes processos. Apenas assimilam e reproduzem mecanicamente.
Esses padrões homogeneizados e homogeneizantes tendem a conformar as pessoas a modelos únicos de verdade, de formas de estar no mundo, que se impõem de modo inquestionável incidindo em processos de domesticação e de subjugação dos comportamentos e posturas. Assim, as verdades viram dogmas e as formas viram fôrmas.
Nessa esfera, são projetados e afirmados hábitos e comportamentos considerados como normais aos quais todos devem se adaptar e se enquadrar. Os que ousam questionar, duvidar e transgredir são imediatamente considerados como anormais, loucos e, portanto, devem ser reprimidos e submetidos às ordens uniformizadoras das lógicas instituídas.
Esse estado de normalidade em que predomina sua vertente conservadora, se traduz na mera reprodução mecânica das coisas e dos padrões estabelecidos mediante os ritos mecânicos de conformação e de submissão dos indivíduos a estes padrões. Dessa forma, a capacidade do ser humano de pensar com criticidade, de questionar, de suspeitar, de transgredir, de transformar, fica comprimida e denegada. A condição humana é quase reduzida ao seu estado zoológico em que deve prevalecer o instinto de reprodução vegetativa da espécie.
A predominância dos formatos desses padrões instituídos, com suas lógicas conformistas e recalcadoras, empobrece e bestializa o humano. Pretende reduzir os indivíduos a meros objetos controláveis e domesticáveis. Os coisifica em cárceres que aprisionam, que decepam as asas de sua imaginação criante, de suas potencialidades inventivas. O espírito de desafio é anestesiado para que os indivíduos apenas se conformem aos regimes instituídos.
Nessa atmosfera normalizada que uniformiza e bestializa, os indivíduos convertem-se em seres normóticos, que, assim, padecem da doença da normalidade. Dessa forma, esses seres são despotencializados de suas qualidades primordiais que se traduzem na expressão do espírito inventivo, de suas inquietações, de suas paixões, de seus sonhos. São, em grandes proporções, des-subjetivizados, destituídos de suas subjetividades, passando, assim, a obedecerem aos ditames impostos como estruturas modeladoras de seus comportamentos, hábitos, valores... Os indivíduos passam a se converter em autômatos desprovidos de desejos e de vontades próprias, submissos aos estatutos instituídos que, assim, pretendem domesticar e controlar para melhor dominar.
Esses processamentos se desdobram mediante estratégias muito bem programadas pelas instituições sociais, de forma bastante difusa e invisível, para tornar mais fácil e potente a normalização, o empadronamento homogeneizante.
Assim, essa normalidade se configura como doentia na proporção em que aprisiona as almas e os corpos humanos nos grilhões dos padrões repressores e castradores que desqualificam cada subjetividade em suas expressões mais singulares. Isso implica na denegação do humano, daquilo que lhe é mais sagrado: a capacidade de ser si próprio, de ser livre, de expressar suas emoções e sentimentos, suas idéias e valores, de inventar sua própria saga no mundo com os outros.
Portanto, se queremos afirmar a vida em suas potencialidades criantes e emancipadoras, precisamos ousar processos sensíveis e inteligentes que primem pela transgressão desses padrões uniformizantes e mutiladores para instituirmos, no seio das relações sociais, horizontes abertos e heterogêneos que potencializem a expressão das liberdades, das diferenças, das subjetividades que nos afirmam como seres singulares e plurais.
Urge cuidar da loucura sadia que nos proporciona a busca do cuidado com nossas subjetividades (idéias, desejos, valores, sentimentos...) em que possamos ser nós mesmos, juntamente com os outros, sujeitos e autores de nossa própria destinação nas travessias do mundo, mediante os processos de itinerrâncias – de errâncias e de aprendências – em que aprendemos a ser-sendo uns com os outros, afirmando nossas potencialidades humanas, nosso espírito altaneiro.
Uma loucura sadia que, desafiando e ultrapassando o ordinário da normalidade doentia, se traduz no cultivo do extraordinário mediante os vôos de nosso espírito e imaginação criantes, de nossas capacidades de insubordinação, de nossos desejos e paixões, de nossas possibilidades de buscas, de descobertas, de arriscamento, de transformar e de nos transformar constantemente nos influxos das metamorfoses do viver.