
TEXTOS

03. OS DESVÃOS DA SUBJETIVIDADE
O termo subjetividade desdobra-se do adjetivo subjetivo que provém latim subjectum conotando aquilo que jaz, o que está por baixo, o que revela-se desde dentro, do interno. O termo objetividade origina-se de objetivo que vem do latim objectum, conotando o que está ao lado, o que se revela por fora, o externo.
Desse modo, subjetividade traduz-se, em sua acepção geral e originante, nas dimensões e camadas internas e imanentes que constelam a complexidade do existir de cada sujeito humano, nas suas dobras subterrâneas e intrínsecas. Configura-se no repertório de valores, crenças, sentimentos, idéias e paixões que perfazem a existência singular de cada indivíduo; naquilo que revela o horizonte de suas características próprias e estruturantes; no que descortina a condição humana singular de cada um.
Ainda estamos muito impregnados com os emblemas dos modelos que têm predominado em nosso processo civilizatório e que superestimam as dimensões objetivas do existir, em que as dimensões externas da vida e da cultura foram instituídas como únicas portadoras da verdade, como instâncias determinantes. Dessa forma, pretende-se que o conhecimento tome caráter meramente objetivo, preciso, linear e seja universalmente válido.
Morin (1996, p. 46) pondera que “na ciência clássica, a subjetividade aparece como contingência, fonte de erros”.
Assim, a singularidade dos sujeitos é expulsa da ciência e da história. O mundo destes é concebido como oposto ao mundo dos objetos. A subjetividade é considerada como caverna sombria que assombra e afasta os sujeitos da verdade. Verdade que, nessa esfera, só pode ser estatuída pelos cânones da objetividade. Assim, a subjetividade é concebida como fonte de ilusão e causadora de erros, distanciando os indivíduos do verdadeiro, do bem e do belo. Essa postura cinde estes das dimensões internas e estruturantes do seu existir encarnado.
A denegação das instâncias internas e seminais da condição humana, da singularidade de cada indivíduo - da subjetividade - incide em processos austeros de recalcamento e de fragmentação dos sujeitos humanos naquilo que eles possuem de mais fundo e peculiar: seus desejos, suas paixões, seus valores, suas crenças, suas cosmovisões. Esse eclipsar da subjetividade desemboca no desbotamento e no desencantamento do ser singular de cada indivíduo mediante a compressão do que lhe é próprio.
O existir humano se consubstancia, primordialmente, pelas expressões seminais das emoções, dos sentimentos e dos desejos, das crenças e dos valores singulares que compõem o estofo de nossa condição originária de seres humanos. Negar estas dimensões significa dessensibilizar os sujeitos, reduzi-los à condição de coisa e de máquina, de objetos e de instrumentos funcionais, que, desse modo, ficam desvitalizados e desencantados.
Em tempos de cultuação de uma racionalidade excessivamente iluminista, técnico- instrumental, pretendeu-se reduzir a subjetividade à mera instância da ratio, ou seja, instituiu-se um sujeito unicamente racional, matematicamente circunscrito aos ditames da lógica analítica e retilínea. Assim, a subjetividade foi reduzida a categorias e conceitos formais e abstratos, sendo caracterizada meramente como expressão do sujeito pensante, reduzido à uniformidade de uma ordem calculista. Um sujeito precisamente comedido e esclarecido pela mesura (metron), pela luminosidade de uma certa razão. Razão esta que ofusca e nega as camadas mais curvas e imponderáveis da subjetividade; que reprime sua desmesura (hybris), seu eros, seu pathos.
Procura-se, assim, objetivizar a subjetividade com a instituição de modelos fechados e homogêneos, compressores e denegadores da heterogeneidade, dos desejos e valores que desenham e colorem o existir próprio de cada sujeito. Sob a égide desses modelos, os que desobedecem as leis da normalidade cristalizada são perseguidos e até punidos, devendo, portanto, ser convertidos em seres bem comportados e enquadrados nas estruturas instituídas pela "moral de rebanho", como seres integrados e obedientes; como "normóticos". A heterogeneidade torna-se uma heresia intolerável. A diferença representa ameaça e desvio da ordem, do centro hegemônico e homogeneizante, e, portanto, deve ser disciplinada, contida e reprimida.
Plasmamos nossa subjetividade nos influxos das vivências travadas na nervura e na plasticidade dos fenômenos cotidianos, entre os recurvamentos das errâncias, das itinerrâncias, que fazem sedimentar os aprendizados que nos alargam e transmutam. A subjetividade se projeta, com mais vigor e intensidade, na proporção em que nos desprendemos das fôrmas e padrões instituídos que pretendem tolher os fluxos vitais do existir de cada sujeito, e, assim, nos impulsionamos e nos movemos para as ondeações das metamorfoses do viver.
A existência primordial de cada subjetividade é instituída no dinamismo e na plasticidade da teia das relações intersubjetivas e sociais mediante os fluxos tensoriais que compõem a história humana, com as ondulações de seus conflitos e contradições. Destarte, cada sujeito pode ousar ações que o levem a ultrapassar a órbita do ordinário, instituindo as veredas do extraordinário, plasmando novos valores, idéias e posturas; autorizando-se e reinventando a própria saga de seu ser-sendo no mundo.
Como afirma Guattari (1992, p. 11) “a subjetividade, de fato, é plural, polifônica”. Desdobra-se na identidade una e múltipla de cada indivíduo singular, em seus compassos e descompassos diversos. Ela é um feixe de heterogeneidades que se criam e se recriam continuamente. Cada subjetividade humana é ambivalente, e, por isso mesmo, tão rica em possibilidades e sentidos. É tracejada por luzes e sombras, por alegrias e tristezas, por semelhanças e diferenças, pelas agonias da tragicidade e pelas alegrais da comicidade como pólos interpolares – a tragicomicidade – que se alternam e se complementam na trajetória singular e irrepetível de cada existência humana.
Polifônicas e híbridas, as subjetividades constelam os entrelaces do corpo senciente e pensante, composto de logos e de eros, de matéria e de espírito como pólos constitutivos da inteireza in-tensiva de cada ser humano em sua condição de homo sapiens-demens. Toda subjetividade comporta o homo ludens, politicus, religiosus, aesteticus, faber, sensibilis... o sapiens-demens. São essas multiplicidades que constituem ontologicamente a complexidade do humano em suas ambiguidades e paradoxos, em suas sombras e luzes, em seus espectros ponderáveis e imponderáveis.
A subjetividade se instaura e se afirma na plasticidade do corpo em sua configuração pregnante e anímica. Como entidade simbiótica que agrega toda a experiência vivida, o corpo está impregnado de sentidos e valores, de símbolos e matizes que são estruturantes dos existires e da cultura humana. Angústias e medos, prazeres e dores, desejos e tensões, vertigem e lucidez se processam, se entrecruzam, se projetam, silenciam e ecoam no estofo da expressão polifônica e vívida da corporeidade, da intercorporeidade.
A subjetividade também é plasmada através das dimensões interligadas do masculino e do feminino. Todo indivíduo humano, em sua condição de homem ou de mulher, é, simbolicamente, portador de características andróginas. A supremacia do patriarcalismo estruturou subjetividades excessivamente masculinas que passaram a negar e represar suas características femininas. Essa supremacia, notadamente nos homens - mas também presente nas mulheres - incidiu em posturas mais arrogantes, carrancudas e austeras.
Cada eu também é um outro na proporção em que se modifica e se transforma. Um e outro são pólos interdependentes que se conflituam e se entrecruzam, propiciando o movimento e as mutações que dão vigor à experiência humana. Cada subjetividade afirma-se, negando-se e transmutando-se, no jogo de permanências e de mudanças que conformam o existir; renovando-se para continuar existindo com o húmus de sua condição germinal de ser imaginante e criante.
Enfim, o cuidado, o desvelo com a subjetividade traduz-se na relação de coexistência in-tensiva e visceral entre nossa imanência, nossas dimensões internas e singulares, o "dentro", e a nossa transcendência, nossas dimensões externas, a alteridade, a objetividade, o "fora". Aprender a tecer o dinamismo dessa teia com maestria parece ser o propósito maior no buscar a incompletude da inteireza da condição humana, de nossa condição de seres híbridos, unos e múltiplos, em que coexistem o sapiens e o demens, o egoísmo e o ecoísmo, o logos e o eros, o yin e o yang, o corpo e o espírito.
A subjetividade, portanto, se descortina mediante o constelar de nossas singularidades orgânicas e simbólicas, das intensidades e das extensidades estruturantes de nosso ser-sendo em seus filamentos moventes. Com seu dinamismo e plasticidade, cada subjetividade se configura, em seu estado nômade, nas itinerrâncias das curvaturas do devir em suas travessias abertas e indeterminadas. Travessias atravessadas pelos fluxos tensoriais e transversais dos acontecimentos que dão ritmo e intensidade ao existir humano. O espectro de cada subjetividade, que se estrutura através dos entrelaces com outras subjetividades, se afirma e se desborda no entramado da intersubjetividade em que envidamos a coexistência in-tensiva do ser-sendo-com-os-outros na saga de nossa destinação inter-humana, em nosso co-pertencimento planetário.
A subjetividade revela, assim, os paradoxos e ambigüidades que perfazem a complexidade da condição humana em seus estados complementares e interdependentes de caos e de cosmos, de desordem e de ordem, na cadência movediça de seus processos contínuos e descontínuos de mutação e de renovação.
04. RELAÇÃO DE COEXISTÊNCIA IN-TENSIVA ENTRE ÉTICA, ESTÉTICA, SUBJETIVIDADE E EDUCAR
Compreendo o fenômeno do educar como uma ação intensiva que se traduz num “rito de iniciação” aos saberes e sentires constitutivos da cultura humana, como processo teórico-vivencial que conduz as subjetividades às buscas dos valores e sentidos humanos primordiais, ao advento da condição humana desde as singularidades de cada contexto histórico-cultural, de cada fluxo existencial e coexistencial (ARAÚJO, 2008).
Nesse horizonte, as ações de educar devem mobilizar a incompletude da inteireza in-tensiva do humano vislumbrando processos que conduzam as subjetividades, mediante o dinamismo das teias da intersubjetividade, ao cuidado com a formação da sensibilidade, da consciência compreensiva, do espírito crítico-criador. Um educar que atravessa e mobiliza os sensos da intuição, da razão, das afecções (emoções e sentimentos), da imaginação criante, enfim, que interpenetra logos e eros, masculino e feminino, corpo e espírito, caos e cosmos.
Propugno um educar que se plasma através da coexistência in-tensiva e fecunda entre Ética e Estética, entre a dignidade e a boniteza, entre o prosaico e o poético, entre a objetividade e a subjetividade. Que mobiliza o pathos da admiração e do espanto suscitando o espírito altivo que implica em dis-posição e despojamento para os riscos e desafios dos acontecimentos; que nos convoca para uma compreensão e uma vivenciação vasta e intensiva acerca da complexidade do humano em seus paradoxos e ambiguidades; que nos implica nos desafios das aprendências e co-aprendências do ser-sendo-com.
Na cotidianidade das ações educacionais instituídas tem prevalecido a configuração de práticas instrucionais que privilegiam os processos de formação técnica e funcional que se desdobram desde as lógicas instrumentais e calculistas. Esses processos primam pela funcionalidade do quantitativo, do ter, dos papéis sociais e desqualificam o cuidado primordial com as qualidades do ser, com a iniciação aos valores humanos traduzidos no zelo pela Ética e pela Estética. Esses processos superestimam a esfera da objetividade, da extensidade em detrimento da subjetividade, da intensidade, das singularidades de cada indivíduo.
Um educar que afirma e realça a subjetividade em seus fluxos heterogêneos e movediços se traduz no cuidado desveloso com a imanência da corporeidade em sua expressão pregnante e anímica, orgânica e simbólica, como estados co-estruturantes do existir. Prima pelo cuidado com as afecções em que cultivamos as intensidades das emoções e dos sentimentos que nos movem e animam no desbordar das paixões e dos sonhos, da simpatia e da empatia; em que aprendemos a transitar entre as ondulações da tragicomicidade do humano, a envidar os compassos das metamorfoses diante das proezas da conflitividade, dos fluxos tensoriais do viver.
A coexistência in-tensiva entre Ética e Estética, no entramado das subjetividades e das intersubjetividades, nos adentra nos territórios do cuidado com os valores primordiais do humano como a dignidade, a solidariedade, a fraternidade, o bem comum, a liberdade, a amorosidade. Isso se descortina mediante a fruição destes como fulcros estruturantes da condição humana nas intensidades de sua plasticidade ad-mirante que nos provoca o jorrar do espírito altaneiro, do espírito lúdico, do espírito de fineza.
O cuidado com a relação de interligação seminal entre Ética e Estética no educar conduz aos desafios que implicam na busca da coexistência amorosa e religante entre os humanos e entre estes e o ecossistema na sedimentação do laço amoroso do abraço que fraterniza e ecofraterniza.
Por fim, concebo o fenômeno do educar como ação intensiva que deve ser inspirada nas fontes dos repertórios existenciais e ancestrais quer perfazem as subjetividades e as intersubjetividades e que implica na poiesis, no fazer criante e inaugural; numa Po-ética como encruzilhada em que a altivez da Ética, interligada com a poeticidade da
Estética, fomentam entrecruzamentos que entrelaçam, dialogicamente, a equidade e a boniteza. Assim, podemos plasmar processos educativos que robustecem a plasticidade das subjetividades em suas travessias moventes pelos territórios da complexidade e dos paradoxos humanos no cuidado fino para com a coexistência humana e ecossistêmica. Um educar que atravessa os vãos do saber e que se descortina nos desvãos da sabedoria na busca dos sentidos que dão cromaticidade e vivacidade ao nosso existir e co-existir
REFERÊNCIAS
ARAÚJO, Miguel Almir Lima de. Os Sentidos da Sensibilidade: sua fruição no fenômeno do educar. Salvador: EDUFBA, 2008.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco Poética (Col. Pensadores, vol. II). São Paulo: Nova Cultural, 1987.
CARVALHO, Edgard de Assis e outros. Ética, solidariedade e complexidade. São Paulo: Palas Athena, 1998.
DUARTE JÚNIOR, João Francisco. Fundamentos estéticos da Educação. Campinas, SP : Papirus, 1988.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.
GUATTARI, Felix. Caosmose: um novo paradigma estético. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992.
MORIN, Edgar. O método 5: a humanidade da humanidade, a identidade humana. Porto Alegre: Sulina, 2002.
MORIN, Edgar. Sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2000.
NOVAES, Adauto (Org.). Ética. São Paulo: Companhia das letras : Secretaria Municipal de Cultura, 1992.
SCHNITMAN, Dora Fried (Org.). Novos paradigmas, cultura e subjetividade. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.